Numa altura em que o país tenta sacudir a poeira das recentes calamidades naturais, o Palácio da Ponta Vermelha serviu de palco, esta quarta-feira, para o desenho de uma nova “arquitetura” económica que pretende, pelo menos no papel, quebrar o ciclo vicioso do endividamento externo. O Presidente da República, Daniel Chapo, recebeu Akinwumi Adesina, presidente da Global Africa Investment Summit (GAIS), para selar a adesão formal de Moçambique a uma plataforma que propõe trocar a mão estendida à ajuda internacional pela valorização agressiva dos activos nacionais.
O encontro começou com o tom sombrio das recentes cheias que fustigaram o país. Adesina, num gesto de diplomacia económica, apresentou condolências pelas vítimas, mas não tardou em transitar para o pragmatismo dos números, elogiando a “resiliência” de um povo habituado a recomeçar do zero.
Se a ausência de Chapo no lançamento da GAIS no Dubai, em Fevereiro, foi justificada pela gestão da crise humanitária em solo pátrio, a audiência de ontem serviu para alinhar agulhas. O Chefe de Estado moçambicano apresentou uma visão que coloca a industrialização e a logística no centro do tabuleiro.
Activos como Garantia, Não a Dívida
A proposta trazida por Adesina é sedutora, mas carrega o desafio da execução: transformar recursos minerais, energéticos e corredores logísticos em fluxos de rendimento tangíveis que atraiam investidores globais sem hipotecar o futuro em novos empréstimos.
“Isto permitirá que Moçambique se desenvolva não com base na dívida, mas utilizando o capital associado aos activos que possui,” afirmou o líder da GAIS.
A estratégia de Chapo parece querer posicionar Moçambique não apenas como um exportador de matéria-prima, mas como o verdadeiro hub da SADC. Os portos, os corredores de desenvolvimento e a agricultura foram listados como os “diamantes em bruto” que a plataforma GAIS deverá ajudar a lapidar para gerar capital soberano.
Alinhamento de Expectativas
Para os observadores, o sucesso desta abordagem dependerá da capacidade do Executivo em garantir que esta “valorização de activos” não beneficie apenas as elites, mas se reflicta numa transformação económica real. Adesina saiu do encontro satisfeito, garantindo que os objectivos da GAIS estão “plenamente alinhados” com a agenda de Chapo.
Resta saber se a transição do modelo de endividamento para o modelo de activos será a boia de salvação de uma economia que ainda sente o peso de escolhas passadas. Por agora, o sinal é de abertura ao mercado, com a promessa de que a soberania nacional passará, obrigatoriamente, pelo que o país tem debaixo do solo e à beira-mar.

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