Presidente tenta segurar apoio europeu enquanto Kigali ameaça abandonar Cabo Delgado por falta de pagamentos.
O Presidente da República, Daniel Chapo, iniciou este sábado, em Bruxelas, uma visita oficial às instituições da União Europeia (UE) e ao Reino da Bélgica. O que seria uma deslocação de “apresentação” e reforço de cooperação transformou-se, subitamente, numa missão de resgate: Moçambique precisa de convencer a Europa a abrir os cordões à bolsa, sob pena de ver desmoronar a arquitectura de segurança no Norte, após o Ruanda ter ameaçado retirar as suas tropas de Cabo Delgado caso não receba garantias de financiamento sustentável.
Embora a agenda oficial destaque o agradecimento pelo apoio à missão da UE (EUTM), o elefante na sala é a sustentabilidade das operações no terreno. A recente pressão de Kigali, que exige clareza sobre quem pagará a conta da sua presença militar, coloca Chapo numa posição delicada perante os parceiros europeus.
Em Bruxelas, o Chefe de Estado procura não apenas a renovação do mandato da missão de capacitação da UE, que expira em Junho , mas também sensibilizar o bloco para o financiamento directo ou indirecto das forças que combatem o terrorismo. A Ministra dos Negócios Estrangeiros, Maria dos Santos Lucas, admitiu que a deslocação serve para “pedir o apoio para a continuação da missão”, mas o aviso do Ruanda eleva a fasquia: sem dinheiro europeu para os “aliados” de Maputo, o vazio de segurança em Cabo Delgado pode tornar-se uma realidade próxima.
A UE continua a ser o maior parceiro de cooperação de Moçambique, abrangendo desde a ajuda humanitária ao comércio. Contudo, o Governo moçambicano não esconde o receio de perder espaço no orçamento europeu. “Nós queríamos ver se continuávamos a ser o país prioritário na lista das prioridades da União Europeia em relação à ajuda ao desenvolvimento”, afirmou a ministra Maria dos Santos Lucas.
Esta preocupação surge num contexto em que vários Estados-membros da UE estão a redireccionar os seus fundos para o sector privado e investimentos comerciais, em detrimento da ajuda directa ao desenvolvimento. Chapo tenta travar esta “debandada” de dadores, apresentando Moçambique como um destino seguro para o capital belga e europeu.
Para além da guerra, a economia moçambicana está asfixiada por desastres cíclicos. O Governo aproveitou a chegada a Bruxelas para agradecer a resposta rápida da UE às recentes cheias, mas deixou o alerta: o apoio para a fase de reconstrução — que Maputo considera “mais complexa” — é ainda insuficiente.
A visita de Daniel Chapo a António Costa é, assim, um teste de fogo à sua capacidade diplomática. Entre a ameaça de retirada do Ruanda e a fadiga dos dadores europeus, o Presidente joga em Bruxelas a estabilidade do seu mandato e a segurança de uma província que continua a ser o calcanhar de Aquiles da República.



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