A cidade de Quelimane transformou-se, na passada quinta-feira (05), no epicentro do debate sobre o destino económico de Moçambique. Sob o mote “Como avaliar a prontidão de Moçambique para os desafios da globalização”, a palestra orientada pelo antigo ministro das Finanças, Adriano Maleiane, serviu de palco para um exercício de introspecção — e de crítica — sobre as barreiras que impedem o país de navegar com sucesso nas águas da economia mundial.
O evento, organizado pela Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Católica de Moçambique (UCM), reuniu uma plateia de peso, desde académicos e reitores (UCM e UniLicungo) a figuras da administração estatal, como o Secretário de Estado na Zambézia, Avelino Muchine. A sessão, iniciada com uma oração de Dom Osório Citora, bispo da Diocese de Quelimane, rapidamente transitou da solenidade para o diagnóstico cru da realidade nacional.
O “Calcanhar de Aquiles” segundo Araújo
Se Maleiane trouxe a experiência de quem geriu o erário público, Manuel de Araújo, o edil de Quelimane, trouxe a pimenta ao debate. Sem rodeios, Araújo desfiou um rosário de obstáculos que, na sua óptica, condenam Moçambique a uma posição periférica na globalização.
O autarca destacou a “frágil especialização” na exploração de matérias-primas — onde o país continua a exportar riqueza bruta sem valor acrescentado — e a crónica falta de integração regional entre o Norte e o Sul do país, que fragmenta o mercado interno.
Contudo, foi ao tocar na segurança que Araújo foi mais incisivo: os recorrentes raptos de empresários nas principais cidades foram classificados como um entrave maior à gestão económica, funcionando como um verdadeiro “calcanhar de Aquiles” que afugenta o investimento e mina a confiança no mercado nacional.
Num tom provocatório e reflexivo, o edil questionou a audiência e o orador principal sobre a natureza da crise actual. Araújo lançou perguntas que ecoam na sociedade civil moçambicana: “Estaremos condenados a repetir os erros do passado? O que nos trouxe a este abismo?”. Mais do que um diagnóstico, o autarca quis saber se ainda há tempo para corrigir o rumo e conduzir Moçambique a um futuro que não seja apenas de sobrevivência, mas de prosperidade real.
O encontro, que terminou com o lançamento de quatro obras literárias, deixou claro que, para além dos indicadores macroeconómicos de Maleiane, o país real — aquele que sofre com a insegurança e a desarticulação logística — exige respostas que a teoria da globalização, por si só, não consegue fornecer.




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